Futuros com IA: estamos preparados para o que vem depois?

Esses dias comecei a pensar em uma pergunta que, de certa forma, já parece ter uma resposta: a Inteligência Artificial chegou para ficar?

Acredito que sim. Na verdade, talvez a pergunta nem seja mais essa. O que tenho me perguntado é: o que vem depois disso e como vamos nos preparar?

Trabalho com tecnologia e tenho acompanhado essa mudança muito de perto. Há poucos anos — e às vezes parece que estou falando da semana passada — para desenvolver um sistema ou resolver determinados problemas era necessário envolver várias pessoas. Um profissional entendia de banco de dados, outro de programação, outro de infraestrutura, outro de interface e assim por diante.

Hoje vejo uma realidade diferente.

Um profissional experiente, com conhecimento do negócio e utilizando IA como apoio, consegue fazer coisas que pouco tempo atrás dependeriam de uma equipe inteira. Ele consegue analisar um problema, escrever código, pesquisar uma tecnologia que não domina, encontrar um erro, criar uma interface, documentar uma solução e testar alternativas.

Claro que isso não significa que uma pessoa substitui uma equipe inteira em qualquer situação. Também não significa que conhecimento técnico deixou de ser importante.

Mas alguma coisa mudou.

E mudou muito rápido.

Talvez o mais impressionante seja perceber que isso não está acontecendo apenas com quem trabalha com tecnologia.

Estamos vendo textos, imagens, vídeos, músicas, apresentações e campanhas sendo produzidos em uma quantidade absurda. Coisas que antes levavam dias podem ser feitas em horas. Algumas, em minutos.

Ao mesmo tempo, existe um problema curioso: está ficando difícil acompanhar.

Você começa a aprender uma ferramenta e, quando finalmente começa a dominá-la, aparece outra. Quando entende uma tecnologia, surge uma atualização que muda completamente a forma de trabalhar.

Às vezes tenho a sensação de que estamos correndo atrás de algo que não para de acelerar.

E foi pensando nisso que comecei a olhar para trás.

Quando eu era criança, ouvia muito que quem tivesse o segundo grau conseguiria boas oportunidades de trabalho.

Depois isso mudou.

Era preciso fazer faculdade.

Depois veio a pós-graduação.

MBA.

Mestrado.

Doutorado.

Sempre existiu a ideia de que precisávamos estudar cada vez mais para estarmos preparados para o mercado.

Continuo acreditando nisso. Estudar continua sendo fundamental.

Mas agora apareceu uma variável completamente nova nessa história: a Inteligência Artificial.

E isso me leva a uma pergunta que considero muito mais difícil:

o que devemos ensinar para a próxima geração?

Se uma criança que está começando a estudar hoje entrar no mercado de trabalho daqui a 10 ou 15 anos, que mercado será esse?

Será que saber utilizar Word, Excel, ferramentas de programação ou mesmo algumas das tecnologias que consideramos importantes hoje ainda fará diferença?

Provavelmente algumas delas nem existirão da maneira como conhecemos.

Por isso, começo a acreditar que talvez tenhamos passado tempo demais ensinando pessoas a encontrar respostas, quando daqui para frente uma das habilidades mais importantes será saber fazer boas perguntas.

Ter informação já não é o grande diferencial.

A IA tem informação.

Ela consegue pesquisar, resumir, comparar, escrever e programar em uma velocidade que nenhum ser humano consegue acompanhar.

Mas ainda precisamos decidir o que fazer com tudo isso.

Precisamos identificar problemas.

Precisamos perceber quando uma resposta está errada.

Precisamos entender pessoas.

Precisamos conhecer o negócio.

Precisamos tomar decisões.

Precisamos ter criatividade para imaginar algo que ainda não existe.

E precisamos assumir responsabilidade pelas decisões que tomamos.

Talvez essas habilidades se tornem cada vez mais importantes.

Também acredito que estamos caminhando para uma mudança interessante no próprio conceito de profissão.

Durante muito tempo fomos preparados para executar tarefas.

O programador programa. O designer cria. O analista analisa. O profissional administrativo alimenta sistemas. O especialista prepara relatórios.

Mas o que acontece quando uma IA consegue executar boa parte dessas tarefas?

Talvez nosso trabalho passe a ser menos sobre executar cada etapa e mais sobre saber coordenar tudo isso.

Uma pessoa poderá ter vários agentes de IA trabalhando para ela. Um pesquisando, outro analisando dados, outro programando, outro preparando documentos, outro acompanhando processos.

Nesse cenário, o profissional deixa de ser apenas quem executa o trabalho e passa a ser quem pensa, direciona, questiona e valida o trabalho realizado pelas máquinas.

E isso também traz uma preocupação.

Se hoje um profissional consegue produzir o que antes precisava de três, cinco ou até mais pessoas, o que acontecerá com o mercado de trabalho?

Não tenho essa resposta.

A história mostra que novas tecnologias eliminam algumas funções e criam outras. Foi assim em outras revoluções tecnológicas.

Mas existe uma diferença importante agora: a velocidade.

Talvez nunca tenhamos vivido uma transformação dessa dimensão acontecendo tão rapidamente e atingindo tantas profissões ao mesmo tempo.

E é justamente por isso que acredito que precisamos discutir mais esse assunto, principalmente quando pensamos na educação das próximas gerações.

Talvez nossos filhos não precisem escolher uma profissão para exercer durante 30 ou 40 anos.

Talvez eles tenham que se reinventar várias vezes durante a vida profissional.

E, pensando bem, isso já está acontecendo conosco.

Quantas ferramentas que utilizamos hoje existiam dez anos atrás?

Quantas existirão daqui a dez?

Por isso, talvez a habilidade mais importante do futuro não seja dominar determinada tecnologia.

Pode ser algo muito mais simples de falar e muito mais difícil de fazer:

aprender continuamente.

Aprender, desaprender e aprender novamente.

Não ter medo de começar do zero.

Saber utilizar tecnologia sem depender completamente dela.

Ter conhecimento suficiente para questionar aquilo que a máquina entrega.

E, principalmente, continuar desenvolvendo aquilo que nos torna humanos: criatividade, curiosidade, senso crítico, empatia e capacidade de tomar decisões.

Quando comecei essa reflexão, minha pergunta era:

A Inteligência Artificial chegou para ficar?

Hoje penso que essa é a parte fácil.

Ela chegou.

A pergunta que realmente me preocupa é outra:

estamos preparando as próximas gerações para um mundo que ainda nem sabemos como será?

E talvez exista uma pergunta ainda maior.

Se tudo isso que estamos vivendo é apenas o começo, qual será a próxima grande transformação?

Não sei.

Talvez ninguém saiba.

Mas uma coisa começa a ficar clara para mim: no futuro, estar preparado provavelmente não significará saber tudo.

Significará estar preparado para aprender tudo de novo.

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